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    Opinião
    Como se não houvesse amanhã
    Fernando Mano

    30/09/2016 – 08:00

    A produção de alimentos de origem animal contribui mais para o aquecimento global do nosso Planeta do que todo o trânsito automóvel

    A 5 de setembro, a comunicação social divulgava que, durante o ano de 2015, o consumo per capita de carne em Portugal ascendeu aos 111Kg, ou seja, mais 3kg do que o registado em 2014, e mais do dobro do máximo recomendado por Instituições como a Organização Mundial de Saúde, o World Cancer Research Fund, ou o National Health and Medical Research Council of Australia. Ou seja, Portugal está entre os maiores consumidores per capita de carne do mundo, a ultrapassar países tradicionalmente conhecidos pela excessiva ingestão de proteína animal, como por exemplo, a Argentina, e a passo constante aproxima-se dos recordistas mundiais, os EUA, a Austrália e a Nova Zelândia.

    Ocorre-me o título de um artigo científico, divulgado, em 2015, pela prestigiada publicação Appetite, cujo título é justamente “Eating like there’s no tomorrow”.

    De facto, o consumo médio de 111kg de carne é não só um problema de saúde pública, mas fundamentalmente um gravíssimo problema ecológico.

    Talvez o maior desafio ambiental com que a Humanidade se confronta neste momento, pese embora – certamente por pudores que nem sempre se compreendem – ser assunto tão pouco debatido publicamente. Tal nível de consumo é absolutamente insustentável por mais eficazes que sejam as inovações tecnológicas que se venham a alcançar num futuro próximo.

    É insustentável por várias razões, desde logo pelo limite físico imposto pelo facto do Planeta não ter área emersa suficiente para a expansão da área de pastagens e de culturas arvenses destinadas à alimentação animal, que a actual tendência de consumo de carne exigiria num futuro muito próximo. A expansão da área destinada à alimentação de animais só pode ser feita com sacrifício – leia-se, redução – da área utilizada para a produção de alimentos directamente destinados à alimentação de seres humanos, ou então, à custa de desflorestação, que é infelizmente o que está a acontecer com grande intensidade em várias áreas da Terra. Na América Latina, a intensa destruição de floresta riquíssima no que que toca a biodiversidade, para em seu lugar se instalarem áreas de pastagem ou campos de milho e de soja, destinados à produção de rações para animais, é uma hecatombe nos dias que vivemos.

     

    A produção de carne é um processo altamente ineficiente, significando quase sempre um desperdício de recursos naturais, cada vez mais escassos num Planeta cada vez mais povoado. Uma dieta com alta percentagem de carne (como ocorre hoje em Portugal), exige o quádruplo da área de terra fértil do que a necessária para garantir uma dieta com reduzido consumo de carne. Acresce que uma dieta humana tão carnívora, como a que em média se pratica em Portugal, tem associados elevados consumos de água e de energia. E a propósito de energia, num tempo de crescente preocupação com as alterações climáticas como o que vivemos, não é possível deixar de sublinhar o enorme contributo da pecuária para o aquecimento global. A FAO estima que 14,5% do total das emissões com origem antropogénica de gases com efeito de estufa, tem origem na actividade pecuária, o que quer dizer que<u> a produção de alimentos de origem animal contribui mais para o aquecimento global do nosso Planeta do que todo o trânsito automóvel</u>. A libertação de dióxido de carbono é uma constante ao longo de toda a actividade pecuária, e que começa desde logo no derrube de florestas para instalação de culturas destinadas à alimentação animal. A esmagadora maioria da energia consumida em todas as actividades ligadas à pecuária, ou é obtida directamente de combustíveis fósseis, ou é electricidade maioritariamente obtida a partir de combustíveis fósseis. A pecuária é também a principal fonte de metano, produzido principalmente na fermentação entérica que ocorre nos ruminantes e que tem um poder de aquecimento global 23 vezes superior ao dióxido de carbono. A pecuária é ainda um importante emissor de óxido nitroso, um gás com potencial de aquecimento 300 vezes superior ao dióxido de carbono.

    A voracidade com que os humanos se lançam no consumo desenfreado – e insustentável – de carne, parece absurda, atendendo a que não somos, de facto, carnívoros. Somos sim omnívoros, com uma modesta vocação para o consumo de carne. Isso é claramente testemunhado, quando mais não seja, pela anatomia do nosso sistema digestivo, que nos confere muito mais aptidão para o consumo de vegetais do que de carne. Acontece que, a carne tem estado muito longe de ser uma mera fonte de nutrientes. Desde o Paleolítico inferior que tem sido um nuclear factor de hominização, determinante na forma como as sociedades se organizaram e fulcral na evolução biológica que conduziu ao Homo sapiens de hoje. Assim, não é de estranhar que a carne tenha sido, desde sempre, um alimento carregado de significados, incluindo de poder e de estratificação, ainda hoje tão visíveis quando se lhe atribui – geralmente de forma errada – o estatuto de “especial fonte de vigor”, e uma forte componente hedónica. Há portanto justificações (nem sempre fáceis de percepcionar) para que a maioria dos habitantes dos países menos desenvolvidos revelem uma propensão para abandonar as suas dietas tradicionais e para consumir cada vez mais carne, à semelhança dos países mais desenvolvidos. Em alguns países da Europa mais setentrional, há já mais de um século que foram atingidos níveis relativamente abastados de consumo de carne. Foi um processo que caminhou de forma intimamente ligada ao aumento dos rendimentos das populações e à crescente urbanização. Este processo ocorreu, na maioria dos países envolvidos, de forma um tanto contida e até com alguma tendência para a estabilização nas últimas décadas. Ao invés, as dietas da Europa Meridional caracterizaram-se por uma penúria mais prolongada no que toca a proteína animal, e só na segunda metade do século XX despertaram de forma serôdia, mas voraz, para uma apetência carnívora, que de forma rápida e inesperada colocaram Portugal, Espanha, Chipre e outros, entre os maiores consumidores per capita de carne do mundo.

    A generalidade dos cidadãos não compreende a relação entre o consumo de carne e alguns problemas ambientais, com destaque para as alterações climáticas. Essa será certamente uma das principais razões que nos ajudam a compreender a sua relutância em se predispor a reduzir o consumo de carne, conforme revela investigação desenvolvida nas mais diversas latitudes e áreas do conhecimento.

    Eu arriscaria considerar que, até agora, apenas dois vectores revelaram clara eficácia na contenção do consumo de carne por seres humanos: as preocupações com a saúde (mais visível nos consumidores mais idosos e mais informados dos países mais ricos) e as inibições de índole espiritual, quer estejam ligadas a convicções e práticas religiosas, quer se baseiem em meras superstições.

    Porém, a redução do consumo de carne é o futuro obrigatório, para bem de toda a Humanidade. Não fará sentido as organizações internacionais bradarem aos governos dos países em desenvolvimento para que dissuadam o aumento de consumo de carne nos seus países, enquanto o Ocidente mantiver os actuais níveis absurdos de consumo.

    Em suma, recolocar o Homem na sua trajectória omnívora é um apelo à inteligência de todos os seres humanos viventes neste século XXI. Um enorme desafio multidisciplinar que implicará estreita cooperação entre áreas de conhecimento tão diversas, como por exemplo, a medicina, psicologia, pedagogia, ciências ambientais e agronómicas, ou economia.

    Não menos importante será o papel crucial que a indústria alimentar terá de desempenhar na busca de um futuro sustentável, nomeadamente desenvolvendo alimentos que os consumidores aceitem em substituição da carne.

    Obviamente que todo este desafio só será possível com o empenho de uma classe política que tenha uma integrada visão de sustentabilidade, desde o nível local ao nível global, claro está!

    Entretanto, Portugal, que já consome 111Kg/ano per capita, continua a aumentar o seu consumo, ano após ano, como se não houvesse de facto amanhã.

    Doutorando em alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável (ICS-Universidade de Lisboa)

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